quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
PONTO DE VISTA - DA BAHIA PARA O BRASIL
Joaci Góes
Uma das características mais marcantes e ao mesmo tempo mais deploráveis dos povos subdesenvolvidos consiste na incapacidade de buscar soluções autóctones para os seus problemas, a partir do entendimento de que tudo que é bom e elegante vem dos países centrais, a quem compete definir os caminhos que a humanidade deve seguir. O Brasil, a partir da Semana de Arte Moderna de 1922, avançou muito na afirmação do propósito de construir o seu próprio destino, ainda que continue a exibir gritante subordinação a matrizes externas de pensamento, em aspectos fundamentais de sua vida social, política e econômica.
Nossa política de transporte é uma delas, bastando mencionar o pequeno papel desempenhado pela navegação costeira, num país que possui a mais extensa costa, num só oceano, à borda do qual vivem dois terços de sua população, responsável por 85% do Produto Nacional Bruto. Em lugar do transporte marítimo, priorizamos o terrestre, muito mais caro, fator de onerosidade dos produtos para o consumidor final. O transporte urbano padece de semelhante estreiteza de visão, ao priorizarmos o automóvel, numa incompreensível subordinação aos interesses das grandes montadoras, inteiramente insensíveis a soluções que nossa realidade clama com a incontestável voz dos fatos. Neste mesmo espaço, há poucos meses, chamamos a atenção para a insistente e inteligente proposta do professor Lourenço Mueller, ao defender, com fervor de cristão novo, a imediata implantação de uma infra-estrutura de ciclovias, nas maiores cidades da Bahia, começando por Salvador, a partir do projeto já desenvolvido por técnicos da Conder, com 200kms iniciais, como meio, inclusive, de desmistificar a equivocada crença em que a topografia da cidade mãe do Brasil torna-a imprópria para utilizar-se desse meio de transporte, a um só tempo, barato, descongestionante do trânsito, não poluidor da atmosfera e representativo de um avanço para o terço da população que se locomove a pé, sem falar que nos horários de rush, a bicicleta termina sendo mais rápida do que o caro, poluidor e emperrado automóvel. Com 60 mil novos veículos incorporados anualmente à frota da cidade, o previsível crescendo do caos é o que se denomina, em linguagem de planejamento, o futuro presente, ou o futuro que, de certo modo, já aconteceu, por derivar, inelutavelmente, da realidade que se espraia diante de nossos olhos. Com um investimento relativamente pequeno, a Bahia poderia sair na frente numa iniciativa que é mera questão de tempo para eclodir Brasil afora. O líder natural desse processo é o governo do estado, em convênio com as prefeituras, sobretudo a dos municípios mais populosos. A própria União, através do Ministério das Cidades, que tem o deputado baiano Mário Negromonte à frente, teria todo interesse em participar, com investimentos e empréstimos. Na média geral, o custo por kilômetro não passará de 75 mil reais, subindo, certamente, nos gargalos que demandem expropriações. No caso de Salvador, não vemos saída mais eficaz e mais imediata do que essa, para desafogar o tráfego e, de quebra, o propalado colapso da carreira política do prefeito João Henrique, que na semana passada, como ressaltou Lourenço Mueller em artigo no jornal A Tarde, inaugurou 1500 metros de pista, da Plaka Ford a Itapuan.
É verdade que a solução parecerá aos acomodados com o status quo desinteressante, porque destituída do charme das grandes metrópoles. Ledo engano, nada é mais moderno do que as soluções que viabilizem a volta à simplicidade de nossas origens. As grande nações do mundo, mesmo dotadas de excelente sistema de transporte público, ancorado no metrô, cada vez mais valorizam a bicicleta como meio de transporte.
Oxalá não demoremos, excessivamente, para enxergar essa gritante alternativa.

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